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Abraços Partidos: as cores de Almodóvar Se lamento tivesse cor, talvez, Almodóvar lhe tingiria de um marrom que se esvai esverdeado até azular. Sim, azul mesmo, cor da serenidade, da contemplação. Porque lamentar é também um estado contemplativo tal, só que dói. Se paixão tivesse cor, muito provavelmente, Almodóvar lhe mancharia de escarlate. Parece muito óbvio, todavia, como mesmo convém à paixão, haveria um quê de desespero: então rosas sob um fundo anil. A alegria, por sua vez, é inevitável: laranja ou amarelo. Se radiante, efusiva, laranja, tão laranja que arde. Alegria, se leve, amarelo. Se amor, púrpura. Se rupturas, gris. Se nostalgia... qual cor mesmo seria a nostalgia? Para todos os fatos, estados, fenômenos, presságios: cores, nuanças, tons... Em “Abraços Partidos”, uma alegoria de cores: ferrugens, verdes, mares, cegueira, escarlate, róseos, rosas, pulsos, cólera, púrpura, gris e, enfim, laranja-amarelado de uma alegria mansa. Não necessariamente nesta ordem; não necessariamente nestes tons... Ana Clara Rebouças
Escrito por Ana Clara Rebouças às 22h04
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“Coco antes de Chanel” Nem tanto pelo filme, e daí talvez algumas destas críticas cri cri tenham razão desta vez, nem tanto pela atuação de sua protagonista, e isso é uma observação particular mesmo, mas “Coco antes de Chanel” vale as quase duas horas e meias das passagens biográficas de uma das personalidades femininas mais importantes do século XX. E é mesmo sem exagero que permito-me a assim descrevê-la para desgosto das feministas mais deselegantes. Explico. Sobre o filme em si, volto e meia reafirmo por aqui que não sou perita na área, portanto, tecnicamente não poderia quase nada afirmar; ficarei então no nível das sensações: faltam certos fôlego e brilho e sobra opacidade. Sobre a atriz, de quem, por sinal gosto muito, fiquei sinceramente na dúvida se tratou-se de uma atuação fria ou pouco envolvente da francesa e leonina Audrey Tautou, ou se, na vida real, a também leonina Gabrielle Bonheur Chanel (o nome já é até meio blasé), Coco para os íntimos, tinha lá um temperamento meio cáustico. Não sei. Fiquei com vontade de ler a biografia para esclarece esta dúvida, mas nem sei se já foi escrita. De volta às feministas e, por conseguinte, à importância desta figura, sendo eu bem objetiva, diria que Chanel “reinventou” a mulher moderna quando o assunto é moda. Não moda ordinariamente falando, mas moda enquanto expressão social e cultural de comportamentos, condutas, relações, ideologias, etc. Moda enquanto o modo como o mundo social e cultural se trans-veste e se expressa. Isto sim o filme ajuda sim a destacar. Antes de Coco, me permitam o quase trocadilho de mau de gosto (se não fosse o acento), mas os trajes femininos até as décadas de 30 ou 1940 eram verdadeiras disenterias de ornamentos: chapéus bufantes, babados excessivos, espartilhos estripadores, etc. Tudo isso porque, seja direta ou indiretamente, quem sempre vestiu a mulher ocidental antes de Chanel foi os homens (que não me deixem mentir as especialistas da área). E acho que eles erraram feio nos excessos e apertos; e isto não por acaso, é claro. Enfim, mudando as roupas da dominação, mulheres e mais mulheres passaram a vestir-se de mais liberdade ao longo das conquistas feministas do século XX; e quem desenhou o “modelito” perfeito para esta nova condição foi ela, Chanel. Agregando elegância, simplicidade e sofisticação, Coco recriou a “feminilidade” para a mulher moderna. Depois do filme, fiquei a me questionar, e deixo as perguntas para o leitor: afinal, que é mesmo “feminilidade”? E qual a “feminilidade” do nosso tempo? Ana Clara Rebouças
Escrito por Ana Clara Rebouças às 19h04
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Julie & Julia: sabores e dissabores... Julie & Julia, produção estadounidense (2009), dirigida por Nora Ephron, não é apenas um filme sobre duas mulheres, separadas pelo tempo, mas unidas por um fascínio em comum: a gastronomia. Há outros ingredientes finos com certeza. Não mais um filme açucarado típico da indústria cinematográfica norte-americana, talvez, de uma doçura nem tão enjoativa assim. Independente da sua forma, conteúdo, técnica ou estética, decididamente, um filme doce. Engana-se, entretanto, quem pensa se tratar de mais uma conversa de cozinha: filme para culinarista ver, digamos assim. É bem verdade que, além da doçura, toda a história vem recheada de cenas obscenamente calóricas ou uma verdadeira luxúria dos ácidos graxos! Mas, sejamos justos: ao lado de cada guloseima, chama a atenção os vestígios de certas angústias e prazeres desta nossa cotidiana vida contemporânea. A começar, o espectador mais atento notará que, vai tempo, vem tempo, a condição humana persegue a mesma velha angústia essencial: a eterna sensação de insatisfação que nos acompanha, mas que também nos move. Não sei bem que receita Sartre nos daria em tempos nossos de fluidez e excessiva reflexividade, mas que as questões existenciais se revestem de novos “sabores” e “dissabores”, nessa nossa contemporaneidade, isso sim procede e está no filme entre uma Madeleine e outra. Outro ponto digno de nota está na solidão humana e na fragilidade dos laços afetivos, acompanhando s que estão no filme de boas comida e bebida. É tocante observar como as relações atravessam o tempo sob a mesma ameaça das rupturas, mas também vivem suspiros mais (ou menos) perenes; ou ainda seguem também marcadas pelas distâncias que aproximam, ou pelas proximidades que afastam, mesmo quando o mundo ainda era por correspondência. A Internet só nos “facilitou” as ambigüidades. Enfim, o filme conduziu-me a um gosto acre-doce na boca (nem tanto doce, nem tanto ácido): unindo as angústias do existir e os soluços de solidão, seguimos vacilando entre "um amor com sabor de fruta mordida" ou "o inusitado do primeiro pedaço". Ana Clara Rebouças
Escrito por Ana Clara Rebouças às 17h34
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De repente As coisas acontecem dentro deste espaço de tempo ao qual chamamos de “de repente”. Os dias passam em uma sucessão, ora lenta, ora veloz, de “de repentes”. Dentro dos “de repentes” acontece o que já não se é mais, o que já não se sentiu mais, o que já não se viveu mais. O presente, este mais fugaz dos “de repentes”, não é necessariamente um tempo, mas um estado tal de existência. E, neste estado tal de existindo, há uma súplica contínua: não se perder o olhar da primeira vez... Que me ocorra sempre o olhar de primeira vez para todos os de repentes que hão de vir... Ana Clara Rebouças
Escrito por Ana Clara Rebouças às 21h18
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“Por uma vida mais fina de poesia” “Quando chove nos braços da formiga o horizonte diminui.” Manoel de Barros, em O Guardador de Águas Queridos amigos e amigas, eis que enfim retomo as palavras! Confesso aqui, bem brevemente todavia, que tem sido árduo conciliar a vida cotidiana, digamos, burocrática-concreta com aquela que chamo de a “vida mais fina de poesia”, aquela da inspiração poética (e não menos concreta), da prosa, das cores, dos tons. Mas, enfim, entre um cansaço e outro, um suspiro mais inspirado, e aspirante por se expressar! Novos ares, novos suspiros! Deixemos então o café requentado, esfriado pelo tempo: e espero, de alma, que este blog tenha sempre o cheiro renovador das manhãs. Há uma outra confissão a ser feita nesta retomada a goles de café fresco. Confissão de paixão antiga que, de súbito reencontrada, fez-me corajosa para voltar a escrever: chama-se Manoel de Barros. Bastou assistir o filme documentário sobre este inefável poeta que, de fato, a palavra se encheu de coragem. E, o leitor deste texto e conhecedor da sua poesia, poderá encontrar certos ares de influência por aqui; e eu não irei negá-la jamais. O filme documentário, dirigido por Pedro Cezar, recebe um título inspirado, e não poderia ser diferente, nos versos do poeta: “Só dez por cento é mentira”, já que, segundo o mesmo, os outros noventa é invenção! Falando menos desta relíquia que é o filme e mais sobre a genialidade do nosso Manoel, por sinal, muito bem traduzida pelo documentário, destaco aqui parte da sua fala que me conduziu a uma profunda reflexão: diz o poeta que comprou seu próprio ócio para viver em função da poesia. A partir desta revelação, trago aqui um cesto de perguntas pelas quais fui prontamente assaltada: quanto mesmo poderia me custar o ócio? Custa a nossa melhor energia? Custa a perda da inspiração sempre fugidia? Custa a juventude? Custa uma vida? As pessoas comprariam seus ócios em função de quê? (E acho que, no fundo, todos – ou quase todos - labutam mesmo para, um dia, quem sabe, poder comprá-lo). Poderia eu, um dia, quem sabe, vender toda a vida burocrática para comprar o ócio em função de viver da (e pela) poesia? Perguntas que me levam a outra perguntas, e a outras perguntas, e a outras... Enquanto sigo sem respostas, entre um café e outro, reanimo o que me resta desta energia nossa de cada dia para dedicá-la a isto que chamo de “uma vida mais fina de poesia”. Ana Clara Rebouças
Escrito por Ana Clara Rebouças às 11h59
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A moça da padaria
Indecisa entre café simples ou espumante, açúcar ou adoçante, senta-se à mesa logo adiante. Prá degustar escolhe um sonho, doce de nome sublime. Não será ela o próprio? Toca suavemente os lábios com o lenço de papel, enquanto olha em volta com ar de indiferença. No que será que ela pensa? Em seguida retira-se num resoluto ato, deixando o resto do sonho em mim e no prato.
Guga Carvalho
Escrito por Ana Clara Rebouças às 17h18
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Nota sobre peixes, pães e outros encantos Não tem jeito. A Páscoa: toda Páscoa tem cheiro de chuva; tem jeito de chuva. Pode até fazer um sol tímido, franzino, mas chove. O bacalhau, para as mesas que o serve, me parece um peixe triste; uma tristeza de peixe frio ou uma frieza de peixe triste! A lagosta, para as poucas mesas que a serve, é mais triste ainda: dizem os pescadores que ela chora a sua própria “morte anunciada”. Depois de saber disso, passei a ter uma dó tão grande deste que é considerado o mais inofensivo dos animais que um prato de lagosta passou à categoria de mausoléu depois desta constatação. Não sou católica, mas gosto de Cristo, tal como gosto dos mártires de um modo geral. Gosto daqueles que trocam a vida por uma causa justa, embora não necessariamente ela possa vir a ocorrer. Isso é desde que o “mundo é mundo”. Cristo: acho sinceramente bonito de se ver repetir a tristeza por sua morte ininterruptamente há cerca de 1976 anos. É um fato comovente, seja a pessoa religiosa ou não. Este, para mim, é o encanto da Páscoa. Os milagres são histórias com encanto: a multiplicação dos peixes, dos pães. E a vida, reproduzida dia a dia como é, sem histórias de encanto, não tem sabor! Ana Clara Rebouças
Escrito por Ana Clara Rebouças às 11h33
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O poeta Parece mentira: o poeta nos deixou vida a fora; e partiu das nossas vistas em um primeiro de abril ensolarado, como convém a um poeta. Com certeza, o nosso olhar pairou mais vazio de verdades, de beleza, de viço. Parece mentira: a vida, às vezes, parece mentira. Parece verdade: a arte, que nos alivia desta realidade vertiginosa, parece verdade. A vida: mentira mais convicta que de tão con-victa, real. A arte: há quem diga que imita a vida, farsa divina... O poeta: é mesmo “um fingidor”? Ana Clara Rebouças
Escrito por Ana Clara Rebouças às 22h06
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Um filho - Parte I Não se escreve uma dissertação: se pari uma dissertação. Isto já não é lá grandes novidades, talvez, seja quase que mais um dito popular. Recentemente gerei uma monografia, por isso, o desabafo deste texto. Para fundamentar esta relação, esboço aqui algumas semelhanças e diferenças entre o estado interessante e a produção das tais obras acadêmicas. Em primeiro lugar, vamos às gestações, mais marcadas pelas diferenças do que pelas similitudes. Bem, o período gestacional biológico, todos sabem, gira em torno dos tão confabulados nove meses. Em geral, há um clima de grandes expectativas e, como o tempo é relativo, entende-se este período como suficientemente “demorado” frente aos ânimos mais aflorados dos pais mais desejosos. A gestação dissertativa, por sua vez, e a chamemos assim, ocorre, no mínimo, ao longo de dezoito exaustivos meses. Há uns desvios para menos ou para mais a depender de algumas variantes que não vem ao caso, mas, o dobro do tempo de uma gravidez biológico seria uma média razoável. Bem, não importa exatamente o quanto de tempo ambos os “projetos” ocupam em nosso corpo: seja no ventre, seja na mente. Há algo que torna a qualidade do tempo, e não quantidade, radicalmente diferente entre um processo e outro. É que na gravidez biológica, a progressão dos estágios embrionários é sempre linear até o tão esperado e feliz nascimento do rebento. A futura mamãe sente-se mais mãe a cada passagem dos dias, das semanas, dos meses. Passado o primeiro crítico trimestre de formação, da tal embriogênese, daí ele, o feto só cresce: o bebê se impõe, pouco a pouco, como uma nova pessoa para este mundo. A dissertação não. A sua progressão é absolutamente a-linear, para não dizer, em um impulso mais pessimista, caótica. Mas avancemos um pouco mais neste ponto. Uma tese é uma sucessão de idéias, normalmente, manuscritas meio que disformes, em pedaços de qualquer papel ou na tela do inseparável monitor, espécie de útero artificial. Idéias estas, é sempre bom lembrar, abortadas uma a uma até que se chegue a um estágio, digamos, “academicamente”, aceitável. O estágio aceitável, portanto, é fruto de uma exaustiva seqüência de vai e vem; de expansão e de contração das idéias; de escritos e reescritos; de muitos rascunhos condenados à lata de lixo dos experimentos. Por tudo isso, a progressão não linear referida. Cabe ainda ressaltar que não importando o quão caótico possa ser o processo da escrita, o prazo de nascimento da monografia é sempre escasso, urgente, assustador. O tempo é, de fato, relativo!
Escrito por Ana Clara Rebouças às 14h14
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Um filho - Parte II Feitas estas primeiras distinções, há outras cruciais que têm a ver com a origem de ambos os “frutos” e com os desejos que lhes cercam. Vamos lá! Ao menos do ponto de vista biológico, todos nós sabemos afinal “de onde nós viemos”. Aliás, para o leitor com os seus vinte ou trinta e poucos anos, pergunto: quem não fora “informado” sexualmente na infância ou na pré-adolescência através do famigerado livreto “De onde nós viemos”? Sim, sim, a minha geração fora plenamente esclarecida acerca do tema por meio deste incrível best-seller para o alívio imediato dos nossos pais na confissão do seu “pecado original” frente à curiosidade ávida das suas crianças. Fantástica estratégia para não dizer o contrário. De fato, uma cartilha milagrosa para a educação sexual dos pequenos! Tabus à parte, e sendo mais exata, e mais mundana também, todo mundo sabe que somos nós filhos de uma (boa) trepada, com algumas exceções do tipo Dolly. Planejados ou incidentais (para não dizer acidentais mesmo), boa ou frustrada, o fato é que há normalmente um prazer inicial envolvido nesta investida. Na dissertação, não. A dissertação não é fruto de uma explosão orgástica arrebatadora, mas, contrariamente, vem de um problema. Explico. Todos que fazem ciência sabem que toda pesquisa parte de um problema. Bem, isto não significa que necessariamente o cientista seja um frígido diante do seu objeto de desejo da sua investigação. Digamos, todavia, que o pesquisador seja uma espécie de “masoquista”: o seu prazer está no problema! Longe de respostas definitivas, como convém à boa ciência, o orgasmo está na pergunta acertada diante do problema. Mas não discorrerei mais sobre isto aqui. Por agora, entre tantas diferenças e algumas semelhanças, há um ponto de confluência que especialmente me instiga: os desejos, e é sobre eles que quero caminhar para os finalmentes. A mulher grávida deseja. Com ou sem fundamentos, isto já é da cultura da gestação, e creio, um mimo justo e merecido! Pois bem. A pessoa que disserta também deseja, e como deseja! Desejos daqueles incabíveis, inimagináveis tais quais a famosa melancia com ovo. A propósito, um parêntese: os excêntricos anseios gastronômicos das grávidas, em combinações insensatas nunca dantes experimentadas, ainda vão me render uma inusitada pesquisa e alguns outros textos por aqui. Por enquanto, estou mais interessada nos devaneios dos dissertantes! Desconfio que os desejos que vêm da gestação da monografia sejam mais “graves” do que uma simples manga verde porque tangem aqueles sonhos mais profundos, os anseios mais íntimos, latentes, adormecidos em sono leve. Então, de repente, eis que acordam impávidos e, mesmo com os prazos acadêmicos arrobando as portas, se quer fazer aquela viagem inesquecível ou se quer investir naquele violão encostado, tantas vezes adiado pelas providências mais “desencantadas”, por assim dizer. Se quer ser a bailarina que não se foi, ser o escritor dos versos ainda não pronunciados, o cantor, o pintor, o andarilho, o balonista, o pescador, o inventor de uma nova vida ou de uma vida renovada... Enfim que venham as combinações “insensatas” sempre! Ana Clara Rebouças
Escrito por Ana Clara Rebouças às 14h10
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(por Cibelle Moraes, Vale do Capão, Chapada Diamantina-Ba)
Fé
Pensei sobre a fé nesta virada do ano. Conclui: ter fé não é necessariamente ter os anseios atendidos. Fé é uma questão de conciliação. Conciliar nossos desejos, os mais secretos, ou os mais avidamente escancarados, nossos medos mais recônditos, ou aqueles mais declarados, nossas esperanças e desesperanças; conciliá-los, enfim, com aquilo que a vida quer; ou com isto que chamam de destino; ou de mandamentos divinos; ou simplesmente de circunstâncias. Tudo, afinal, é uma questão de ponto de vista.
Em 2009, que venham as circunstâncias que vier, mas que eu as conciliem, inundada de toda a fé.
Feliz ano novo!
Escrito por Ana Clara Rebouças às 12h02
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Sonhar
Ganhei um presente de uma pessoa querida: um texto instigante e próximo das aspirações deste blog. Muito linda mesmo esta minha amiga das letras, com as suas sutilezas inusitadas. No texto, em certa altura, dizia o cronista que, para ele, "as comidas são entidades oníricas". Esta confissão soou-me cheia de uma realidade entusiasmada. Concordo inteiramente que os alimentos possam nos despertam a "capacidade de sonhar". Inspirada por esta leitura, e pretendendo estender a nobreza do presente recebido, trago aqui algumas breves palavrinhas que brindam o fim de ano e a chegada de novos dias.
Gostaria de compartilhar um sonho que sempre me ocorre ao redor das ceias natalinas: aquele da ética, entendida como a justiça e o bem, entre nós. Os dias passam, o ano finda, os mesmos vícios de exclusão se mantêm, mas, chegada esta época, é possível que alguns sintam mais intensamente a necessidade de olhar para além dos seus próprios umbigos. Sendo assim, desejo que, nos seios das famílias, as mesas mais fartas ou mesmo as modestas instiguem a "capacidade de sonhar" com uma sociedade de fato mais justa.
Em virtude deste sonho, divido as minhas expectativas para o ano nascente: que "a capacidade de sonhar" se desdobre em valores e práticas concretas e que se mantenha tal como o ato diário e sagrado de se sentar à mesa.
Um feliz Natal e um 2009 muito bem servido, claro, nos melhores sentidos!
Ana Clara Rebouças
Escrito por Ana Clara Rebouças às 18h21
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(Lemon Tree, Oil on canvas, Marie Sheridon)
Lemon Tree
Para Gabriela, olhos de limão-rosa
Leveza ácida de limões bem dosados. Assim é o gosto do longa-metragem Lemon Tree (2008), uma produção israelense-franco-alemã, dirigida e produzida por Eran Riklis. O filme traz a história de Salma, viúva palestina, que tem seu pomar de limoeiros ameaçado, após a chegada do seu novo vizinho, o ministro de segurança de Israel. A partir de então, suas árvores são vistas como grave riscos; e assim condenadas ao extermínio. Muito além da delicadeza da narrativa, o longa gera frutos caros à existência humana, o quais lançam raízes para contextos, culturas e conjunturas várias: poder, violência, insegurança, solidão, mas também resistência, tolerância, solidariedade e, até mesmo, esperança e amor, mesmo em tempos tão áridos.
Uma rodada de vinhos e boa comida entre gente querida me fez recordar deste filme, assistido há algumas semanas. Especialmente, o risoto de limão, carinhosamente preparado por uma das amigas, provocou a mesma leveza ácida experimentada em Lemon Tree. De imediato, ocorreu-me pensar neste que é um fruto sui generis: o limão.
No caso do filme, há toda uma poética que envolve os grandiosos limões, amarelos vibrantes, e vacilantes nos pés, de tão pesados de seus sumos. São belas as mãos que os acolhem; que são as mesmas que os tolhem, os cortam, os transformam sublime e magistralmente. É como já dizia o poeta: "o mesmo amor que tenham por nós, quer-nos, oprime-nos". Túrgidos e luminosos se fazem prazer onde quer que toquem: na água, limonada. Doces com limão re-significam o açúcar; salgados com limão dignificam o sal.
Digno foi o risoto de limão entre amigos. Digno da leveza ácida do encontro daqueles que se riem, se choram, se espetam, se desabrocham para isto leve-ácido que é o viver.
Ana Clara Rebouças
Escrito por Ana Clara Rebouças às 23h33
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"Meu limão, meu limoeiro
Meu pé de jacarandá
Uma vez tindodolelê
Outra vez tindolalá"
Escrito por Ana Clara Rebouças às 23h22
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Tempo
Eu gostaria muito de ter um filho, mas não sei se vai dar tempo para isso, considerando tudo aquilo que eu entendo como criação; e tudo que o ser humano merece ao ser intimido a vim ao mundo. Vejam bem que em nenhum momento, eu me referi à “necessidade” ou “vontade” ou, pior ainda, ao “instinto” de maternidade, para alívio das feministas mais críticas. Há, portanto, uma grande diferença entre querer ter um filho e querer ser mãe; pena que a maioria confunde as duas coisas. Bem, mas aqui não quero falar deste assunto, mas do tempo.
A questão do tempo biográfico é a pedra no meu sapato, ainda mais pontiaguda porque, graças ao desencantamento, eu não sei se vou ter outras tantas vidas para dar conta de tudo que ainda quero ser e fazer. Em ordem de urgência, falta-me terminar este mestrado arrastado, mas alucinador. Depois disso, e “feliz” desta nossa geração hiper-especializada, mas não necessariamente empregada, se eu quiser uma chance de trabalho minimamente digno, terei que me dedicar aos vitalícios anos de doutorado, pós-doutorado, pós-pós-pós (aqui já cacarejando como uma galinha de produção em série). Pois então, só aí se vão anos.
Entretanto, me dirão que enquanto isto eu poderia fazer outras tantas coisas. Sim, é verdade, poderei sim. Eu ainda quero estudar melhor as Ciências Sociais porque descobri que passei cinco anos em uma faculdade “equivocada”, onde fui menos convidada a pensar do que a... Bem, isto é um assunto exaustivo e intrigante, mas para outra oportunidade. Fora a sociologia, a antropologia, sim, claro, as ciências políticas, e as pós-graduações, eu jamais admitiria passar a vida sem experimentar ter a cabeça de um filósofo. Ainda vou fazer um curso de filosofia. A esta altura, e para não ficar chato também, confesso que estaria bem próxima de me sentir satisfeita com esta bagagem teórica.
Mas ainda há outros tantos conteúdos para pouca “mala” (metáfora estranha de mim, eu, hein?). Estou me referindo aqui aos sonhados projetos artísticos ou, se preferirem, às pretensões artísticas tão sonhadas. Primeiro, mas não em ordem de importância, eu quero pintar. Lançar-me em altas pinturas, em telas astronômicas. Imaginem, que sonho! Eu ainda farei um bom curso de artes plásticas, acadêmico ou não, mas um bom curso. Eu quero pintar. Eu quero dançar também, afinal, o corpo não precisa só andar. Dançar a gafieira, o samba, o clássico, o tango, sim, um tango de rosas, rodopios e beijo na boca. Lamento todos os dias pelas minhas, por enquanto, ex-carreiras de pintora e bailarina, como diria Saint-Exupéry, “frustradas muito precocemente”, nos afãs da minha infância.
Mas a minha relação endividada com as artes não pára por aí. Eu quero, eu preciso estudar música, levá-la mais respeitosamente, como ela bem merece. Cantar tudo que a garganta pode; e, quem sabe, descobrir que fazer música não é uma missão impossível. E ter um instrumento de estimação? Poderia ser os tradicionais piano ou violão; os quais também foram abortados muito precocemente da minha vida. Porém, caso não dê tempo, contento-me em arranhar um pandeiro, obviamente, jamais desmerecendo a grandeza do universo percussivo.
Bem, por fim (porém temo que não seja exatamente o “fim”), eu tenho que escrever um livro. Seria infinitamente triste passar pela vida sem escrever um livro, seja de prosa ou de verso, mas pelo menos um. Ainda tem o lance de plantar a árvore... e o filho...? O filho, o filho...
Definitivamente, são muitos anseios para pouca vida ou então eu me rendo logo a concordar com Ricardo Reis: “quer pouco, terás tudo; quer nada, serás livre”.
Ana Clara Rebouças
Escrito por Ana Clara Rebouças às 11h44
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